Publico aqui assuntos relacionados à psicologia e que são de meu interesse. Convido aos leitores compartilharem deste maravilhoso universo da psiquê do ser humano.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Habilidades Sociais em Crianças de Séries Iniciais

As vivências e experiências da criança nos seus primeiros anos de vida podem tanto favorecer quanto desfavorecer a aquisição de comportamentos socialmente habilidosos. Esses anos iniciais são determinantes para todo o restante do desenvolvimento infantil, podendo suas conseqüências serem prolongadas na adolescência e na vida adulta da pessoa. Desse modo, quando uma criança apresenta mais atitudes anti-sociais do que pró-sociais, ela pode vir a sofrer rejeição dos colegas e pessoas próximas e assim desenvolver quadros depressivos ou de grandes dificuldades de aprendizagem. Com isso, suas chances de se tornar um adolescente delinqüente, envolver-se com drogas e ter dificuldade na carreira e nos relacionamentos serão muito maiores (Del Prette, A.; Del Prette, Z. & Pavarino, 2005).
O Treinamento em Habilidades Sociais (THS) é um conjunto de procedimentos que visa superar os déficits comportamentais, tentando diminuir as dificuldades interpessoais e estimulando a competência social (Caballo, 2003; Cia, 2006; Del Prette & Dell Prette, 2005a; 2005b). As pesquisas relacionadas ao THS demonstram o quanto esta área pode ser utilizada além da Psicologia Clínica. A proposta de trabalhar as habilidades sociais na escola vem a serviço de criar um repertório adequado para obter relações harmoniosas entre colegas e adultos envolvidos na vida do infante. Desenvolver uma competência social significa obter uma trajetória satisfatória até a adultez, “porque aumenta a capacidade da criança para lidar com situações adversas e estressantes” (Del Prette & Dell Prette, 2005a, p.17).
O modelo de educação dos pais ou responsáveis parece ser um fator fundamental para a aprendizagem de comportamentos competentes para se viver em sociedade. (Bandeira, Del Prette, A.; Del Prete, Z.; Rocha & Souza, 2006b; Ferreira, 2002). Contudo, pode-se ir além e afirmar que o contexto geral no qual a criança cresce, desde a época, a cultura até a localização e estrutura da sua moradia influencia significativamente no seu desenvolvimento global. O importante desta afirmação, é a idéia de que cada situação exige uma análise minuciosa para identificar as variáveis que se relacionam direta e indiretamente com os comportamentos problemáticos apresentados pela criança (Bandeira, Del Prette, Del Prette, Rocha & Freitas, 2006b).
O THS na escola ganha espaço a partir do momento em que há uma carência na educação social dentro do sistema familiar. Atualmente a maioria das crianças acaba tendo seu primeiro contato com um grupo de pares no colégio; o que antigamente aconteceria na relação com os vizinhos ou no convívio em família, fica postergado devido a uma configuração diferente de moradia, de formas de brinquedo e principalmente do sistema familiar, o qual hoje apresenta estruturas diversas, além da tradicional. Todas essas mudanças transformaram também o modo como os pais lidam com os limites necessários para a educação dos filhos, pois não há um padrão definido de regras e valores, já que estes se alteram conforme cada contexto e situação (Del Prette, A. & Dell Prette, Z., 2005a; 2005b). Assim, a instituição escolar tende a assumir uma intervenção maior em regras sociais e de boas maneiras.
Tendo em vista estas questões, o objetivo deste trabalho foi verificar quais habilidades sociais aparecem mais desenvolvidas em cada uma das séries iniciais do ensino fundamental. Os resultados deste estudo, uma vez que pretende localizar os maiores déficits de habilidades sociais das crianças em cada faixa etária, permitiriam propor novos modelos de intervenções melhor embasados e fundamentados para treinar as habilidades sociais mais relevantes para cada série inicial do ensino fundamental. O que por sua vez poderia facilitar na aprendizagem, no desenvolvimento sociopsíquico e na resolução de problemas dos alunos, prevenindo assim, fenômenos como o bullying e outras dificuldades de relacionamento social.

Treinamento em Habilidades Sociais

Os comportamentos socialmente habilidosos implicam em um repertório diversificado de ações capazes de resolver a situação problema de forma imediata e diminuir a possibilidade de ter problemas futuros de mesma origem (Bolsoni-Silva & Marturano, 2002; Caballo, 2003). Existem fatores intra-pessoais que exercem efeito sobre o desempenho social, são: os sentimentos, os objetivos pessoais e o auto-conceito. As conseqüências do desempenho social de cada pessoa podem ser positivas ou negativas, o que por sua vez vai reforçar ou extinguir determinadas atitudes. Uma mesma habilidade social pode ser utilizada em momentos diferentes, assim como uma mesma situação pode requerer diferentes habilidades, de acordo com a personalidade de cada indivíduo. Sendo assim, a criança, além de aprender as habilidades sociais, precisa saber articulá-las e adequá-las ao contexto em que está inserida (Bolsoni-Silva & Marturano, 2002; Del Prette & Del Prette, 2005a; 2005b).
Ao avaliarmos as habilidades sociais de um determinado sujeito, devemos levar em conta fatores como a idade, o gênero, o nível de instrução e a classe social a qual ele pertence em consonância com as normas, as regras e os critérios do contexto sociocultural de referência (Blanca; Cardelle-Elawar; Garcia; Infante e Trianes, 2002). Ademais, a eficácia de um comportamento vai depender do resultado almejado pelo sujeito e da expectativa dos outros frente àquela situação. Toda essa diversidade de fatores torna o processo de avaliação das habilidades sociais uma tarefa complexa (Caballo, 2003; Cia, 2006, Del Prette & Dell Prette, 2002; 2005a; 2005b).
Através da convivência podemos perceber várias habilidades importantes para compor um repertório desejável de interações sociais. Para explicar melhor o que é desejável para o relacionamento social, alguns conceitos foram criados a partir da observação da linguagem verbal e não verbal. Dessa forma é importante diferenciar esses conceitos que o trabalho em habilidades sociais traz consigo, são eles: desempenho social, competência social e habilidade social. Os sinais de comunicação emitidos durante as relações sociais podem ser os mais diversos. O desempenho social diz respeito às atitudes apresentadas pela pessoa em uma ocasião específica, independente de serem competentes ou não. A avaliação sobre esses comportamentos é o que chamamos de competência social; ou seja, é o modo de apreciar os resultados do desempenho do sujeito em interação. Já as habilidades sociais se definem como o conjunto de comportamentos sociais adequados que a pessoa possui para lidar com diferentes situações (Del Prette & Dell Prette, 2005a; 2005b). Esta diferenciação é feita pelo fato de uma pessoa pode ter diversas habilidades, mas não conseguir colocá-las em prática algumas vezes. Sendo assim, a competência social depende do desempenho social e da prática das habilidades sociais. Além disso, quanto mais a criança tiver um feedback positivo das sua atitudes, mais seu repertório de comportamentos adequados vai ser aprimorado (Bolsoni-Silva & Marturano, 2002; Cia; Del Prette, A.; Del Prette, Z & Pereira, 2006; Del Prette & Del Prette 2002, 2005a; 2005b). Em crianças existe um forte indicativo da funcionalidade do desempenho social, que diz respeito ao julgamento que os outros fazem sobre determinado comportamento, principalmente se este outro for do grupo de pares. Assim, também se torna válido o status social entre os colegas e os comportamentos adaptativos que auxiliam no bom desempenho social.
Caballo (2003) relaciona diversos componentes expressivos emitidos pelo sujeito que ajudam a compor alguns tipos de habilidades sociais, como: o olhar, a dilatação pupilar, a expressão facial, o sorriso, a postura corporal, os gestos, as relações de distância e proximidade, o contato físico, os componentes paralinguísticos, os componentes verbais, a conversação e os elementos ambientais.
Outro conceito significativo do trabalho com habilidades sociais é a divisão dos transtornos psicológicos em externalizantes e internalizantes. Segundo A. Del Prette e Z. Del Prette (2005a; 2005b) os transtornos externalizantes, são caracterizados por comportamentos ativos, desafiadores e oposicionistas; uso da agressividade, tanto física quanto verbal; e utilização da mentiras como forma de escapar de situações problema. Já os transtornos internalizantes manifestam-se através de comportamentos mais passivos e introvertidos, nos quais as crianças tendem a ficar isoladas, retraídas, ansiosas e magoadas mais facilmente. Tanto os problemas externalizantes quanto os internalizantes são resultado de um repertório deficiente de habilidades sociais.
Os autores (Del Prette, A. & Del Prette, Z., 2005a; 2005b) definiram três estilos de desempenho social de maneira a dispor o reconhecimento das particularidades dos desempenhos socialmente competentes. Portanto o desempenho social é dividido nas reações habilidosas, que obviamente, são comportamentos que se ajustam às solicitações da vida social e chegam ao resultado esperado. E na contra-mão as reações não-habilidosas passivas e ativas. As passivas dizem respeito a quando o sujeito acaba não enfrentando suas demandas interpessoais, geralmente expressas por mágoa, ressentimento e/ou angústia. Caracterizam-se por atitudes de fuga ou esquiva e estão associadas aos problemas internalizantes. As reações não-habilidosas ativas por sua vez são os comportamentos agressivos, que levam ao negativismo e a coerção para lidar com as demandas interpessoais e estão ligadas aos problemas externalizantes.
Tentando facilitar a análise dos desempenhos sociais, vários autores tentaram estabelecer quais os grupos de habilidades sociais precisavam ser prioritariamente observados. Desse modo, A. Del Prette e Z. Del Prette (2005a; 2005b) categorizaram as habilidades sociais em sete classes conforme os problemas interpessoais mais comuns entre as crianças, levando em conta também a diversidade de contextos prováveis em que podem estar inseridos esses conflitos. Logo, as habilidades são as seguintes: Autocontrole e Expressividade Emocional; Civilidade; Empatia; Assertividade; Fazer Amizades; Solução de Problemas Interpessoais e Habilidades Sociais Acadêmicas. É importante ressaltar, no entanto, que o repertório de habilidades sociais das crianças é bastante amplo e pode subdividir-se quase que infinitamente.

Relação entre habilidades sociais, fracasso escolar e competência acadêmica
O fracasso escolar sabidamente é um fenômeno que pode ser determinado ou sofrer influência de diversas variáveis, como gênero, classe social, grau de instrução dos pais, incentivo e motivação para o estudo, problemas emocionais, déficits cognitivos e/ou lesões neurológicas. Dependendo de qual seja o motivo, para cada aluno é essencial haver uma educação especializada; porém, em todos os casos verifica-se que as crianças se beneficiam com uma intervenção associada que auxilie no desenvolvimento de interações interpessoais satisfatórias com o seu meio. “As interações sociais são entendidas como educativas na medida em que representam condições para a aquisição de conceitos, habilidades e estratégias cognitivas que afetam o desenvolvimento social e a aprendizagem” (Del Prette & Molina, 2006, p.54).
Em nosso país, identificam-se mais freqüentemente dificuldades de aprendizagem em estudantes do Ensino Fundamental. Esse período de vida escolar é considerado por muitos autores como um período crítico, em que o aluno está fortemente concentrado em aprender com os adultos a como se tornar competente e produtivo em suas tarefas. “Os dois maiores desafios da socialização, enfrentados pela criança em idade escolar, consistem em se ajustar às demandas do professor e em responder às expectativas dos colegas”. A falha nesse processo pode ter resultados desastrosos sobre a vida do aluno, como rejeição dos pares e fracasso acadêmico, afetando fortemente na auto-eficácia e, conseqüentemente, na auto-estima da criança. Desse modo, o desempenho escolar exerce grande influência no desenvolvimento posterior positivo ou negativo (Bandeira, Del Prette, A.; Del Prette, Z.; Pires ; Rocha, 2006a, p.54).
Alguns estudos têm sido realizados procurando analisar a relação entre as habilidades sociais das crianças e o seu desempenho acadêmico. É fácil observar que muitas crianças com dificuldades de aprendizagem apresentam também comportamentos socialmente inadequados. Os alunos com baixo rendimento escolar evidenciam mais frequentemente características de personalidade agressiva, irritável, ansiosa, oposicionista, impulsiva, agitada, descontrolada e desorganizada do que alunos com bom desempenho acadêmico; e por vezes apresentam inclusive alterações funcionais do sono e da fala (Del Prette & Molina, 2006). Em vista disso, experimentos feitos com alguns desses estudantes puderam comprovar que o THS, além de diminuir comportamentos problemáticos, pode melhorar também a capacidade da criança em assimilar conteúdos didáticos.
A relação entre competência social e acadêmica também tem sido foco de pesquisas no Brasil, sendo que “os dados encontrados apontam para a importância e a necessidade de um programa de habilidades sociais tanto clínicos como profiláticos a serem implementados nas escolas” (Bandeira e cols, 2006a, p.61). Um bom rendimento escolar geralmente vem acompanhado na nossa sociedade de uma idéia de sucesso e superação, o que favorece o direcionamento da pessoa para um projeto de vida que busca a auto-realização e o reconhecimento dos que o cercam. A competência social está fortemente associada à capacidade do indivíduo em organizar seu mundo interno e expressá-lo de modo claro para os outros, articulando-se com o que ambiente espera dele. Para isso, são essenciais habilidades complexas como “fazer perguntas, lidar com críticas, seguir regras, solicitar mudanças de comportamento e resolver situações interpessoais conflituosas” (Bandeira e cols, 2006a, p.54). A infância é o período mais sensível para a aprendizagem das habilidades que levam a competência social. Isso significa que o treinamento em habilidades sociais durante o ensino fundamental nas escolas é uma medida de prevenção e redução do fracasso escolar e de suas conseqüências.
Bandeira e cols. (2006b) realizaram uma ampla pesquisa em uma cidade de Minas Gerais com 257 estudantes de 1ª à 4ª séries do ensino fundamental e 185 pais e 12 professores dessas crianças a fim de avaliar a relação dos comportamentos problemáticos com as habilidades sociais e as dificuldades de aprendizagem. Através do instrumento de escala Social Skills Rating System (SSRS), constatou-se de modo geral que, em consonância com os dados da literatura, os alunos do sexo masculino, de escolas públicas, com menos condições socio-econômicas, menor repertório de habilidades sociais e maiores dificuldades acadêmicas são os que evidenciam mais freqüentemente comportamentos problemáticos. No que se refere à incidência de comportamentos problemáticos em cada série do ensino fundamental, de acordo com a avaliação dos professores houveram diferenças significativas. A quarta série obteve o menor índice de comportamentos problemáticos, com exceção da segunda série, que não apresentou diferenças importantes; e na primeira série e terceira série se registrou maior ocorrência de comportamentos problemáticos do que nas outras séries. A idade das crianças não indicou correlação com esses resultados.
Del Prette e cols (2005) elaboraram um artigo no qual compreende-se mais claramente a necessidade do treinamento das habilidades sociais como forma estratégica de prevenir e reduzir os comportamentos anti-sociais na infância. Esses autores priorizam, sobretudo, a habilidade de ser empático. O comportamento anti-social está geralmente bastante associado à baixa inteligência, negligência familiar, abusos, maus tratos, dificuldades e preconceitos socioeconômicos. São crianças com déficits principalmente nas habilidades de empatia e solução de problemas interpessoais. Por conseqüência elas facilmente são rejeitadas pelo seu grupo de iguais, o que as situa num padrão de relacionamentos negativo e conflituoso difícil de ser transformado. Verifica-se ainda que comportamentos anti-sociais na infância podem preceder problemas psicológicos na vida adulta. Em contrapartida, os comportamentos pró-sociais (como compartilhar, cuidar, cooperar, ajudar) são preditores de uma vida mais saudável em todos os sentidos: físico, mental, psicológico e social. Desse modo, entende-se que promover atividades para o exercício e o desenvolvimento da empatia precocemente ajuda a criança a introjetar valores de não-violência, o que, a longo prazo, pode inclusive reverter o quadro abusivo de violência atual da sociedade. 

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